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Um terço dos brasileiros bloqueia marcas insistentes.

Um terço dos brasileiros já bloqueou marcas por excesso de comunicação. Esse dado, revelado pelo estudo “Experiência de compra do consumidor digital”, realizado pela Deloitte com mais de 2 mil entrevistados em todo o país, não pode ser tratado como um simples número de mercado. Ele revela uma mudança estrutural na forma como as pessoas se relacionam com empresas.

Segundo o levantamento, 28% dos consumidores bloqueiam remetentes insistentes, outros 28% cancelam inscrições, 22% passam a reavaliar a relação com a marca e 20% reforçam suas configurações de privacidade. Ao mesmo tempo, 49% afirmam que preferem resolver problemas de compras e serviços pelo WhatsApp. O aparente paradoxo mostra que o consumidor não rejeita o contato, ele rejeita o contato irrelevante.

Os canais que mais geram incômodo são telefonemas, citados por 58% dos entrevistados, seguidos por mensagens instantâneas e e-mails, ambos com 43%. No entanto, o problema não está necessariamente no meio utilizado, mas na forma e no momento em que ele é acionado. A comunicação descontextualizada, disparada por automações mal calibradas e sem leitura real da jornada do cliente, transforma oportunidade em desgaste.

Cada pessoa possui, em média, um número principal de telefone, um WhatsApp ativo e um e-mail. Quando bloqueia uma marca, praticamente encerra as portas de contato direto. Recuperar essa confiança é mais difícil e mais caro do que manter relevância desde o início.

Outro ponto sensível revelado pela pesquisa é o abandono de carrinho. 67% dos consumidores afirmam que não finalizam a compra após um segundo contato insistente da empresa. Isso evidencia um erro recorrente no marketing digital: confundir automação com personalização. Lembretes podem ser estratégicos; pressão repetitiva, não. Existe uma linha tênue entre apoiar a decisão do cliente e invadir seu espaço. Em um cenário de hiperconectividade, essa linha se tornou ainda mais estreita.

Apesar disso, os consumidores demonstram abertura para compartilhar informações quando percebem valor na troca. 73% afirmam fornecer ao menos um tipo de dado pessoal às empresas. Entre os dados que estão dispostos a compartilhar estão identificação, localização e informações de navegação. O que está em jogo, portanto, não é resistência à personalização, mas exigência de responsabilidade. Transparência, investimento em cibersegurança e comunicação clara sobre o uso dos dados se tornam diferenciais competitivos. Não basta proteger; é preciso demonstrar que protege.

O contexto também é impulsionado pelo crescimento consistente do comércio eletrônico. Em 2025, o e-commerce brasileiro alcançou R$ 234,9 bilhões em receita, representando um crescimento de 85,7% em comparação com 2020. A inteligência artificial já desempenha papel central nesse avanço, seja por meio de recomendações mais precisas, buscas aprimoradas ou antecipação de necessidades. O chamado “agentic commerce”, no qual sistemas automatizados sugerem e executam compras com base em comportamentos e preferências, começa a se consolidar como tendência. No entanto, quanto mais tecnologia é incorporada à jornada, mais determinante se torna o posicionamento da marca. Ferramentas ampliam eficiência; reputação sustenta escolhas.

Ao mesmo tempo, o ambiente físico mantém relevância significativa. A maioria ainda prefere lojas presenciais para categorias como alimentos e bebidas, e uma parcela expressiva mantém essa preferência para farmácia, cosméticos e moda. O futuro do varejo não reside na substituição de canais, mas na integração entre físico e digital. A leitura inteligente de dados, combinada a experiências coerentes em todos os pontos de contato, é o que reduz atrito e fortalece vínculos.

O que esse cenário ensina é que o consumidor contemporâneo valoriza assertividade, transparência e experiência fluida. Comunicação excessiva deixou de ser sinônimo de presença de marca e passou a representar risco reputacional. A insistência custa relacionamento. A relevância constrói autoridade. Em um mercado cada vez mais competitivo e orientado por dados, a pergunta estratégica não é quantas mensagens enviar, mas quando, como e por quê enviá-las. Empresas que compreenderem essa mudança não apenas evitarão bloqueios, mas construirão conexões mais duradouras e sustentáveis.

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